Relatório do psicodrama realizado no Centro Cultural São Paulo em 03/05/08
Tema do trabalho: O grupo
Equipe de trabalho AGRUPPAA
Diretora de palco: Sylvia Ferraz da Cruz Cardim
Diretora de platéia: Milene Feo
Egos-atores: André Dedomenico, Cândida Capecchi, Nathaly Antunes, Daniel, Plínio, Marina.
Público: O trabalho se iniciou com um público de 18 pessoas e terminou com 84 pessoas.
O ato socionômico realizado neste sábado, 03/05/08, se iniciou com o tema geral O Grupo. A intenção da equipe liderada por mim, tinha como horizonte de trabalho o grupo, como fenômeno complexo de pesquisa da interface entre o indivíduo e o grupo, mas, sobretudo, pretendia acompanhar o processo de constituição do próprio grupo, na passagem de um agrupamento, em que os indivíduos presentes não têm necessariamente relações de interdependência recíproca, ao grupo, momento em que todos os participantes emprestam seus corpos, seu psiquismo e sua energia em prol da constituição do Aparelho Grupal, a fim de examinar o tema protagônico, favorecendo a expressão do maior número de vértices ou olhares a respeito do fio condutor eleito.
O trabalho no Centro Cultural tem sua especificidade, pois vem do grupo a história de um processo anterior que cada psicodramatista retoma a sua maneira, reativando sentidos em estado latente, podendo resignificá-los.
Aquecimento
A primeira etapa do trabalho, ou o aquecimento inespecífico, tem para esta equipe uma dimensão peculiar. Deve garantir o contrato e a aliança de trabalho, pesquisar os movimentos iniciais da platéia em suas motivações e temores para o trabalho a ser realizado, que nos possibilite passar de um campo intensivo disperso para um campo intensivo focado. Chamamos campo intensivo toda esta zona silenciosa que constitui a experiência, esta zona de possibilidades de sentidos não representados, meio no qual operam campos de forças diversos.
Nesta fase, ainda, pequenas dramatizações têm por função complexificar demandas iniciais, além de introduzir os aspectos cênicos próprios ao psicodrama, como uma espécie de role-taking da ação dramática, desempenhadas pelos egos atores ou pelos próprios integrantes da platéia. Três micro-cenas foram produzidas: O psicodrama no CC como uma compulsão, uma espécie de vício; o psicodrama no CC como um ritual desde a sua divulgação até sua chegada no sábado; o psicodrama no CC como uma centrífuga, que proporciona ao indivíduo uma depuração do olhar, da sensibilidade e da compreensão dos fenômenos.
A segunda etapa, centrada no tema, teve como consigna o seguinte percurso: cenas grupais, estar atento aos grupos nos quais me insiro e escolher um deles. Tal grupo imprime em mim certo modo de me relacionar. Este aspecto meu ressaltado nesta relação grupal se assemelha a um personagem (que pode ser inventado, pode ser um animal, coisa, super herói, objeto, etc). Em seguida visualizar o grupo no qual se insere tal personagem e a cena deste conjunto. Uma vez encarnado neste personagem compartilho: “Eu sou...”. Compartilhados os personagens, convidamos aqueles que gostariam de vir ao palco contar sua cena a partir deste personagem.
Personagens e suas cenas:
Eu sou:
Uma pedra no meio do meu caminho.
Um Vencedor e estou diante de uma porta.
Uma louca que moro com um ex-punk e um filho que estão me enlouquecendo.
Um palhaço em meio a um grupo de palhaços em um circo.
Um líder que coordena um grupo de diretores e preciso achar um meio de fazê-los chegar a um acordo.
Um caçador entre um grupo de caçadores diante de uma floresta que guarda tanto nosso alimento quanto perigos que podem nos destruir.
Um pato selvagem entre outros patos selvagens, nosso suprimento está acabando, precisaremos migrar, não sabemos o caminho, mas sabemos que nem todos sobreviverão.
Um peão de um jogo de xadrez em meio às outras peças da minha cor (brancas), mas as peças adversárias não vieram para o jogo.
Um juiz em meio àqueles que julgam como o dono da verdade.
Um camaleão que entrou em uma floresta de pedra e se petrificou.
Das três cenas mais votadas (o líder, a louca, o camaleão), o grupo elege a cena do camaleão.
Dramatização
Começamos a etapa da dramatização a partir da emergente grupal. Inicialmente peço aos egos que façam uma expressão intensiva (uma ressonância corpórea) de como se sentiriam nesta situação apresentada pelo camaleão. Etapa que ajuda o emergente grupal a mapear cenicamente as áreas de consonância, dissonância e neutralidade com seu personagem, em relação às expressões corpóreas dos egos. Um integrante da platéia pede para se expressar em cena e passa a integrar o grupo de egos. Os egos eleitos como consonantes permanecem no palco com a emergente grupal para a etapa de dramatização do vértice apresentado por ela e os egos dissonantes saem do palco para bolarem uma cena simbólica do conflito apresentado.
O camaleão elege três egos consonantes que passam a compor sua cena. O camaleão se desdobra em três elementos: uma camada de pedra que o recobre, um turbilhão interno que não cessa, profere sons incompreensíveis e seu pensamento que se coloca de fora à distância, de modo que não pode ouvir o que acontece em seu interior. A emergente escolhe por experimentar o turbilhão interior, quer fazer algo para quebrar a carapaça que a aprisiona, vai crescendo tomando corpo, ficando maior e consegue colocar a cabeça para fora. Neste momento, a platéia se alvoroça. As questões giram em torno de saber como se sentia, se estava acostumada a ser camaleão ou se aquilo a incomodava, se teria coragem ou não de se mostrar, já que poderia se mimetizar em melancias, morangos ou laranjas caso estes fossem seu novo grupo. A emergente escuta as manifestações e prosseguimos. Como o turbilhão, pede que seu pensamento e carapaça fiquem de fora da cena para que possa andar um pouco e pede para que um membro da platéia seja um outro bloco de pedra perto do qual vai se aproximando e de novo se liga às pedras, dizendo que ali consegue sentir sua forma. Surge a personagem de um escultor que quer modelá-la. Ao término, recusa tal intervenção já que ela própria queria dar forma a si mesma e como pedra torna-se uma escultura de bailarina.
Interrompemos a etapa de produção cênica da emergente grupal e abrimos espaço então para a cena de bastidores produzida pelos egos. A cena traz três subgrupos que delimitam tipos grupais marcados por cores e pessoas que passeiam entre estes grupos e aos poucos cada um dos que por ali passa vão sendo aprisionados e se enrijecem ao se ligarem a um grupo. Em cima desta cena, abre-se para a platéia a possibilidade de experimentar à sua maneira outros desfechos para cena. Um membro passa por todos os grupos, o experimenta e não se satisfaz com nenhum, pois logo se entedia. Outra integrante quer a todo custo manter sua identidade como verde e não quer se misturar aos vermelhos, nem aos brancos, ou aos roxos, por maiores apelos que façam, nem mesmo a um outro tom de verde que se prontifica a formar um par. Um terceiro membro da platéia se propõe a passear entre os grupos sem compromisso, tendo a liberdade de escolher ser pedra se quiser. A emergente grupal pede para acompanhá-lo. Experimentam outros territórios, em alguns ela vai junto, em outros rejeita participar e decide permanecer de novo no território das pedras, podendo se sentar junto a elas, mas não quer se confundir com elas, mas ali pode descansar e quem sabe ler um livro. Encerra-se a dramatização e passamos ao compartilhar.
Compartilhar
O compartilhar que se segue nos aponta questões interessantes. Registro aqueles que ficaram em meio a tantos outros, conforme se expressaram.
-Há uma diferença entre um psicodrama tipo auto-ajuda, que procura soluções e aqueles que nos ajudam a pensar, que nos abrem para uma reflexão.
-O camaleão pode perder o seu contorno e individualidade, pois seu espaço de expressão se reduz em face ao espaço ocupado pelo exterior que o invade. E isto é uma forma de aprisionamento.
-Ainda que o tema inicial tenha sido o grupo, as pessoas ali preferiram trazer sua individualidade, e todas as vezes que se tentou trazer a dimensão grupal para cena, na forma do escultor ou do outro tom de verde, para se construir algo em conjunto, estas iniciativas não foram aceitas.
-Como faço para existir em um grupo sem ter que me mimetizar, mas ao mesmo tempo como os grupos podem imprimir em nós certos jeitos de se comportar, nos determinam, tirando de nós, muitas vezes, o que temos de pior.
-Como muitas vezes podemos estar em relações ou grupos com as quais nos misturamos de tal monta, que já não conseguimos nos separar, pois não sabemos mais qual é a nossa cor.
-Alguns agradeceram a possibilidade de poderem ter sido um pouco pedras, mais estáveis, sem se sentirem impelidos a pular de galho em galho.
-Fala-se sobre a questão da afinidade que me liga ao meio, precisamos descobrir o que nos liga às coisas e as quais delas eu quero me ligar.
-Fala-se da importância da capacidade mimética do camaleão, como forma de proteção contra predadores.
-Ser um pouco camaleão pode ser fator de adequação para se estar em grupo.
Aqui vale uma ressalva interessante sobre o efeito do processo e talvez da metáfora construída pelo grupo, em especial em seu efeito de adesão ao meio no qual me insiro. Desde o início do trabalho convivemos com um freqüentador do CC bastante desagregado, delirante, que apresentava grande dificuldade em se conter, com falas desconexas. Ao final, mais centrado ele conseguiu produzir um compartilhamento e pôde escutar sem tantas inquietações, agradeceu o trabalho.
Considerações finais
O tema trabalhado pelo grupo, a partir da cena simbólica do camaleão, nos revela uma camada originária e indissociável da relação indivíduo-grupo, ou do indivíduo com o mundo. Esta camada primordial, terreno da pré-objetividade, ou seja, aquém dos prejuízos clássicos que reduzem a interpretação do fenômeno a uma de suas infinitas possibilidades, esta camada primordial é prenhe de sentidos. Mas, se somos inexoravelmente constituídos nesta relação, podemos também ser por ela capturados numa espécie de naturalização da experiência, momento em que as verdades se constituem como imutáveis, fixas e eternas – reduzindo, portanto, o espaço para a espontaneidade e a criatividade. A questão do mimetismo para o humano é ambígua, pois se o meio dá o tom das minhas cores, por outro lado, eu antecipo esta relação segundo minhas preferências, minhas motivações.Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
no sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.
(João Cabral de Melo Neto)