100 anos de Psicodrama

Em 2021, o Psicodrama, criado e idealizado pelo J.L.Moreno, completou 100 anos. A história dessa caminhada até os dias de hoje você confere aqui.

Cadeira vazia: 1º ato Psicodramático em praça pública.

Áustria, 1º de abril de 1921. O país estava no período pós-guerra, sem governo. Jacob Levy Moreno, diante de mais de mil pessoas, colocou a cadeira no meio do palco e instigou o público a se sentar e fazer o papel de rei, propondo soluções.

Teatro Da Espontaneidade

Viena, 1922. Juntamente com seu irmão William, Moreno começa a fazer improvisações espontâneas com atores profissionais e percebe que, ao trazer para a dramatização experiências reais, ela pode funcionar como uma terapia. A visão de alguns era a de que aquilo não passava de charlatanismo, considerando que tudo era combinado. Moreno, então, passou a usar matérias do jornal do dia para criar as dramatizações, comprovando o improviso. Surge aí a famosa técnica do Jornal Vivo.

Psicoterapia de Grupo

Filadélfia, 1932. Já residindo nos Estados Unidos, J. L. Moreno apresenta no I Congresso de Psiquiatria da Sociedade Americana, um trabalho terapêutico que desenvolveu com presidiários de Sing-Sing, usando um novo método em grupo, a Sociometria Aplicada, visando melhorar a comunidade social dentro da prisão. Surge então a Psicoterapia de Grupo, termo usado pela primeira vez na história das ciências sociais.

Livro “Quem Sobreviverá?”: os primeiros indícios da Sociometria

Comunidade de Hudson, 1934. Após sua magnífica apresentação no Congresso de Psiquiatria da Sociedade Americana, J. L. Moreno dedica-se a uma pesquisa sobre relações interpessoais na Comunidade de Hudson, com jovens delinquentes, juntamente com Helen Jennings. Essa parceria rendeu a Moreno uma grande rede sociométrica, abrindo espaço para estudos no campo da Psicologia Social e Sociologia. Desses estudos, surgiu “Quem sobreviverá? – Fundamentos da Sociometria", livro que foi e ainda á uma referência à sociometria e apresenta a filosofia do Moreno em relação ao lugar em que a criatividade e a espontaneidade ocupam na vida de uma pessoa. Seu conteúdo foi tão além do seu tempo que é facilmente aplicado em conceitos de redes sociais da atualidade.

Hospital Psiquiátrico de Beacon

Beacon, 1936. Após se tornar cidadão americano, Moreno abre um Hospital Psiquiátrico, onde realiza trabalhos com psicóticos em comunidade terapêutica e, ao lado, a partir de 1941, passa a funcionar o Instituto de Psicodrama de Nova York, onde psicoterapeutas do mundo todo vinham para ter uma formação psicodramática. Foi palco de muitos conceitos e produções psicodramáticas, sendo como uma das grandes inspirações para o livro Psicodrama (Ed. Cultrix), principal referência bibliográfica na área até hoje.

Psicodrama de Crianças na França

Paris, 1946 Por meio do Centro Claude Bernard, o Psicodrama começa a ser utilizado e difundido na França por psicanalistas. O trabalho de J. L. Moreno, que estimulava a dramatização e criação de papéis, foi referência para um trabalho com crianças, favorecendo a espontaneidade e a criatividade através da imaginação.

Alberto Guerreiro Ramos e a Grupoterapia

Brasil, 1949. Alberto Guerreiro Ramos foi um sociólogo que coordenou o Instituto Nacional do Negro, dentro do Teatro Experimental do Negro. Nele oferecia, por meio do teatro, a oportunidade para negras e negros enfrentarem seus temores e ressentimentos oriundos de estereótipos raciais e visões autodepreciativas incorporadas desde a infância, nomeando a prática como Grupoterapia. Este foi o primeiro registro da prática psicodramática no Brasil! Em 1950, Guerreiro Ramos escreveu no jornal "Quilombo" que J. L. Moreno teve grande contribuição, através do Psicodrama, no que ele considera “método de análise das relações humanas e um processo de terapêutica psicológica”. Assim, comprova a disseminação do Psicodrama no mundo, tendo este primeiro registro da prática e inspiração no Brasil.

I Congresso Internacional de Psicoterapia de Grupo

Toronto, Canadá, 1954. Organizado por um comitê, que incluía J. L. Moreno, o I Congresso Internacional aconteceu em 1954, com cerca de 300 participantes de 24 países, com 37 palestrantes. O resultado desse congresso foi o nascimento da ideia de uma associação de profissionais e uma confederação de organizações interessadas no trabalho em grupo: o Comitê Internacional de Psicoterapia de grupo. Moreno realiza a sua primeira demonstração pública do Psicodrama e encanta a todos com suas técnicas.

Psicodrama no Brasil através de Pierre Weil

Brasil, 1955. Psicólogo francês, Pierre Weil chegou ao Brasil em 1948, para dar aulas no SENAC do Rio de Janeiro. Em 1955, começou a aplicar suas primeiras experiências de psicodrama em treinamentos, abrindo as portas para o uso da técnica no meio empresarial também. Participou de Workshops em Beacon, diretamente com o “pai” do psicodrama, J. L. Moreno e sua esposa Zerka Moreno. Essa aproximação rendeu um prefácio de Moreno no primeiro livro publicado no Brasil de Psicodrama, onde Weil ajudou a disseminar a teoria moreniana no nosso país, possibilitando o acesso de profissionais e estudantes da área a terem acesso a referências em português.

Psicodrama na Psicologia

Brasil, década de 60. Mesmo que o Psicodrama só tenha ganhado visibilidade com a vinda de Jaime Rojas-Bermúdez, no Brasil, Íris Soares de Azevedo, psicóloga e socióloga, já fazia psicodrama em São Paulo desde a década de 60. Autodidata, Íris apresentou o Psicodrama para nomes importantes como José Manoel D’Alessandro e Alfredo Correia Soeiro, que mais tarde coordenariam com ela o GEPSP – Grupo de Estudos de Psicodrama de São Paulo. Eles integraram também o grupo de brasileiros que participaram do III Congresso Internacional de Psicodrama e Sociodrama, realizado em Barcelona. Nessa época, a prática do Psicodrama só era reconhecida entre médicos, e o fato de ter uma Psicóloga entre eles, ainda mais coordenando grupos e práticas, foi um marco para abrir o Psicodrama para outras áreas terapêuticas.

O Psicodrama na América Latina, com Jaime Rojas-Bermúdez

Argentina, 1963. Jaime Rojas-Bermúdez, colombiano de nascimento, fixou residência em Buenos Aires, onde se formou em Medicina com a especialização em Psiquiatria. Foi o primeiro diretor de psicodrama certificado por J.L. Moreno na América Latina, e um dos mais importantes pioneiros na disseminação dos conceitos e métodos psicodramáticos, pois organizou os fundamentos da teoria de Moreno, que facilitou a compreensão do Psicodrama e sua disseminação como ciência, somando à teoria o conceito do Núcleo do Eu. Fundou a Asociación Argentina de Psicodrama y Psicoterapia de Grupo e um dos grandes contribuintes com a disseminação do Psicodrama no Brasil.

Primeiro livro brasileiro de Psicodrama

Brasil, 1966. Pierre Weil chegou ao Brasil em 1962 e é autor de mais de trinta obras e de uma centena de artigos em várias línguas. Entre os livros, está o “Psicodrama”, com prefácio do criador do Psicodrama J. L. Moreno, que foi o primeiro livro sobre o assunto publicado no Brasil. A importância dessa obra é tanta, pois trouxe ao país as teorias e práticas de Moreno, alimentando o saber de estudantes e profissionais da área. Hoje, o Brasil é considerado o país que concentra o maior número de psicodramatistas do mundo! Você encontra mais informações no artigo da Revista Brasileira de Psicodrama: Pierre Weil e o Psicodrama no Brasil, de Venina Metaxa Kladi. Vol. 17 No. 1 (2009).

Psicodrama Socioeducacional com a Maria Alicia Romaña

Buenos Aires, Argentina, 1969. Pedagoga argentina, Maria Alicia Romaña teve contato com o Psicodrama de grupo, pela primeira vez, participando de uma sessão realizada por Jaime Rojas-Bermúdez. Segundo ela, estava em busca de uma metodologia para ser usada na educação, fugindo do método tradicional de memorização e abrindo espaço para o desenvolvimento construtivo da criança. Se formou em Psicodrama focando na psicoterapia e acabou adaptando o que aprendeu em um método próprio para facilitar a aprendizagem em sala de aula. Durante o IV Congresso Internacional de Psicodrama, realizado em Buenos Aires, Maria Alicia apresentou seus estudos, inclusive na presença de J. L. Moreno. E assim, surgiu o Psicodrama Pedagógico, ou Socioeducacional, em que a vivência propicia uma melhor aprendizagem, trabalhando em grupo com jogos e dramatização.

Congresso Internacional de Psicodrama no MASP

MASP, São Paulo, 1970. Na década de 60, Jaime Rojas-Bermúdez, passou a vir com sua equipe para São Paulo para dar formação a grupos de profissionais de saúde que desejavam uma instrução de Psicodrama. O interesse no Brasil tão logo chamou a atenção de Moreno, que então delega para os psicodramatistas brasileiros a organização do V Congresso Internacional de Psicodrama, a ser realizado em 1970, ápice da Ditadura Militar. Mesmo assim, a coragem fez com que o Congresso acontecesse e fosse um sucesso! Foram mais de 3000 pessoas inscritas, um espaço aberto para qualquer pessoa, sem precisar de formação específica. O evento foi um ato de resistência, assim como aquele primeiro ato de J. L. Moreno, em Viena, a “Cadeira Vazia”.

Fundação FEBRAP

São Paulo, 1976. Após o Congresso Internacional de Psicodrama, realizado no MASP em 1970, o GEPSP (Grupo de Estudos de Psicodrama de São Paulo) se dissolveu por conta das divergências entre seus membros, em relação às vertentes seguidas. O resultado disso foi a criação de 14 entidades de Psicodrama que, mais tarde, viram a necessidade da criação de uma Federação para a intermediação entre as Federadas, a organização de Congressos Nacionais e a normatização dos cursos. Além, claro, da divulgação do Psicodrama no Brasil por meio da Revista da FEBRAP, agora chamada de Revista Brasileira de Psicodrama. Este ano, a FEBRAP completa 45 anos, sendo considerada a maior Federação de Psicodramatistas do mundo. Tem como sede a cidade de São Paulo e congrega escolas de formação de psicodramatistas em todo o Brasil, divididas entre as regiões de São Paulo (interior e capital), Centro Oeste, Norte-Nordeste, Sul e Sudeste.

1ª Revista da FEBRAP

São Paulo, 1977. A criação da FEBRAP tinha como uma das funções divulgar o movimento psicodramático brasileiro. Assim foi criada a primeira revista de Psicodrama do Brasil: a Revista da FEBRAP. O grande objetivo era publicar produções brasileiras que estavam surgindo na época. A publicação ganhou notoriedade e, em 1994, se tornou Revista Brasileira de Psicodrama, que foi editada na forma impressa até 2013 e atualmente está na forma digital. A RBP divulga as novas tendências do movimento psicodramático nacional e internacional, e estimula a reflexão e o debate sobre o psicodrama dentro do contexto científico, cultural, social e político contemporâneo.

1º Congresso Ibero-americano de Psicodrama

Salamanca, Espanha, 1977. Mais de 300 pessoas compareceram ao 1º Congresso Ibero-americano de Psicodrama, dentre eles, cerca de 80 brasileiros. Foram mais de 100 apresentações e workshops, realizados simultaneamente. A Federação Brasileira de Psicodrama, FEBRAP, apresentou o Axiodrama, o Psicodrama Público e o Sociodrama, além de muitas palestras que mostraram a força que o Psicodrama alcançou no Brasil. Em um jornal da época, espanhol, o articulista descreve a participação dos brasileiros: “O calor e o colorido das apresentações brasileiras deram uma matriz alegre e criativa ao Congresso.” (La Hoja de Psicodrama Año 05. Nº 23, Julio 1997).Esse foi um dos motivos do Brasil ter sido escolhido o próximo país a sediar a edição seguinte do evento. O resultado desse encontro foi um livro, feito a partir das atas, o Manual de Psicodrama y Psicoterapia de grupo.

I Congresso Brasileiro de Psicodrama

Serra Negra, SP, 1978. Em 1978, a FEBRAP promoveu seu I Congresso Brasileiro de Psicodrama, em Serra Negra (São Paulo), presidido por Alfredo Naffah Neto. Nessa época, a Federação tinha como presidente Içami Tiba. Foram apresentados artigos, principalmente de Psicodrama Pedagógico. A partir daí, a cada dois anos, um novo Congresso Brasileiro de Psicodrama é realizado, com o objetivo de abrir espaços de discussões, exposição de ideias, novas vivências e novos conhecimentos.

Psicodrama Organizacional

Brasil, década de 80. O marco mais conhecido do Psicodrama no Brasil foi o V Congresso Internacional de Psicodrama, no MASP, São Paulo. Nesse evento, foram apresentadas novas propostas, como a aplicação na Pedagogia. Dentro desse contexto, psicodramatistas como Yvette Datner e Joceli Drummond começaram a trazer, nos anos 80, as técnicas usadas no Psicodrama Pedagógico para o meio organizacional. Atualmente, profissionais de RH e líderes de equipes organizacionais somam o hall de psicodramatistas, expandindo suas aplicações e inovando a teoria e prática dentro de empresas, com treinamentos, recrutamento e seleção, ferramentas de pesquisa de clima e avaliação de desempenho, entre outros processos. 👉Será que Moreno sabia que o seu Psicodrama seria tão visionário?

Psicodrama Público no Centro Cultural de São Paulo

Metrô Vergueiro, SP, 2003. Desde 2003, os frequentadores do Centro Cultural de São Paulo podem assistir a sessões de Psicodrama Público, no subsolo. Esse espaço foi aberto para que, pessoas comuns, que passam por lá, encontrem uma maneira de se autoconhecer, vivenciar histórias e dramas da vida. Narrativas, experiências, histórias que lotam o porão do CCSP, com sessões abertas para qualquer um. Assim é o Psicodrama Público da Vergueiro. Um espaço que apresentou a muitos universitários o Psicodrama, lutou contra governantes para continuar a funcionar, assim como acontece com muitos outros Psicodramas Públicos pelo Brasil. Na Pandemia do Covid-19, passou a ser online e um alento para várias pessoas que estão tentando lidar com a situação de isolamento social. J. L. Moreno, criador do Psicodrama, nunca deixou de dirigir Psicodramas Públicos, pois era ali que ele conseguia visualizar o cotidiano, as queixas e as situações do dia-a-dia. Para um Psicodramatista, essas sessões são um desafio. Sem roteiro, sem saber como o público vai reagir, é sempre uma novidade, uma experiência única.

Impromptu Man e vinda de Jonathan Moreno ao Brasil

Brasil, 2018. Jonathan Moreno, sociólogo, filho do criador do Psicodrama, J. L. Moreno, veio ao Brasil em 2018, no 21º Congresso Brasileiro de Psicodrama, para o lançamento da versão em português do Livro “Impromptu Man”, de sua autoria. Ele concedeu à Federação Brasileira de Psicodrama os direitos autorais para publicação em português de seu livro, em que traz histórias de seu pai J.L.Moreno, conta os bastidores da jornada de Moreno com o Psicodrama, além de memórias de sua infância. Curiosidade: Foi o primeiro livro editado e publicado pela FEBRAP.

1º Congresso Brasileiro de Psicodrama online

Zoom, 2020. Desde 1978, a cada dois anos, a FEBRAP produz o Congresso Brasileiro de Psicodrama, mas no último ano, quando aconteceria a 22ª edição, o mundo foi pego de surpresa com a Pandemia do COVID-19 e a impossibilidade de aglomerar pessoas. Isso mudou o conceito do evento. Em 2020, tivemos o primeiro Congresso Brasileiro de Psicodrama totalmente online! Um momento marcante para o Psicodrama, quando estivemos juntos, através da tela do computador. Experiências foram trocadas, percepções sobre o que o mundo estava sofrendo e como estava reagindo. Encontros que vão deixar um marco na história do Psicodrama no Brasil. Tivemos as participações especiais, saraus, debates e lançamento de livros. Você duvida que esse Congresso entrará para a História do Psicodrama?

Comemoração dos 100 anos do Psicodrama

Brasil, 1 de abril de 2021. Um dia especial merece uma comemoração especial! A FEBRAP preparou um documentário sobre o Centenário do Psicodrama e apresentou ao vivo pela plataforma Zoom. Hoje, a gravação do encontro e o documentário, estão no Youtube da Federação. Também lá, estão as versões legendadas em espanhol e inglês. Após esse dia, todo mês, de abril de 2021 a março de 2022, a FEBRAP produziu eventos temáticos online, gratuitos, que também se encontram disponíveis na plataforma.

Assista aqui a todos os eventos do Centenário do Psicodrama: