Reflexões sobre os dias que antecedem e os dias pós eleição presidencial: Reflexos nas famílias.

Por Júlia Casulari Motta.

O planeta Terra está vivendo uma crise de valores sem precedentes na história. Notícias de guerras, conflitos internos nos países, crises econômicas, eleições e tumultos sociais acontecendo por todo lado. Como se estivéssemos revivendo uma torre de Babel com dois lados extremados. Ambos com dificuldades de ouvir. Neste cenário o contato verbal deixou de ser o principal instrumento de comunicação humana.

Nenhum país pode se dizer feliz e próspero, mesmo que esteja bem internamente. Por quê? A cada hora os meios de comunicação trazem notícias de ameaças, riscos e violências desmedidas que nos amedrontam. O clima é de tensão, medo e ansiedade. Para onde estamos indo? O que quero para mim e para todos? Cresce o uso de medicamentos ligados à Saúde Mental (crianças, adolescentes, adultos): ansiedade, depressão, doenças ligadas a alimentação, angústia, automutilação, pensamentos de desistência da vida…

O Brasil não está diferente do mundo. Vivemos tempos difíceis, aumento das desigualdades sociais, desemprego, pessoas e famílias morando nas ruas e praças, principalmente nas grandes cidades. Um estado de desesperança e medo. Nesse artigo quero focar na realidade desses dias que antecedem e os dias pós eleições e seus reflexos nas famílias, com especial atenção aos filhos, (sejam crianças, adolescentes e jovens- adultos).

Trabalho com Psicologia faz 40 anos, com especialização em família. Os temas familiares sempre estiveram presentes nas áreas da saúde e educação. Entretanto, como agora, ainda não tinha visto acontecer. Nascemos inseridos em um grupo já existente. A família com quem convivemos, não escolhemos. É diferente do grupo de amigos que escolhemos.

Os conflitos políticos entraram nas famílias de forma ainda não vista por mim. Escuto filhos dizendo da tristeza de não poderem conversar com os pais e outros membros da família porque não tem diálogo possível quando o assunto é política. Escuto dos pais e adultos que na família houve um “racha de comunicação” impedindo de ter natal, aniversários, comemorações. Nos encontros familiares existiam antipatias, não concordâncias …, entretanto, a festa acontecia e todos se ajeitavam em nome da família. Hoje não! Infelizmente a intolerância aos que pensam diferente define mais que outros valores, às vezes até mais que os valores espirituais.

Nessa semana que antecede o segundo turno a panela de pressão ampliou sua temperatura. As crianças e jovens que muitas vezes não entendem as razões dos adultos, tanto nas escolas quanto em casa, acabam adoecendo por não conseguirem traduzir em palavras o que sentem confusamente.
O que vivemos agora não vai terminar automaticamente na noite de domingo quando anunciarem o vencedor, seja ele quem for. Metade do país entrará em luto com o resultado.

É preciso que os adultos se equilibrem no luto, na tristeza da perda para que não entrem no campo da angústia, melancolia, depressão, crise de ansiedade… Um ambiente tóxico e adoecido na família refletirá nas crianças, adolescentes e jovens. Evitemos adoecimentos. Cabe a nós adultos a liderança de manter a comunicação saudável com as crianças, adolescentes e adultos. Ao olhar a natureza é possível ver a Rosa do Deserto, exemplo de resistência, determinação e perseverança climática. É tempo de encontrar respostas novas para questões antigas.

Júlia é Psicóloga, Psicodramatista, especialista em Família.
Autora de [email protected] Ed Pontes