Psicodrama e Inteligência Artificial: Cocriando a Espontaneidade no Palco Digital

Por Andréa Claudia de Souza. –

O Psicodrama, desde sua gênese moreniana, sempre manteve um diálogo profícuo com as tecnologias de seu tempo. Jacob Levy Moreno anteviu mídias como o rádio e o cinema não apenas como difusores de informação, mas como extensões da ação dramática e da comunicação humana. Hoje, a Inteligência Artificial (IA) surge como uma ferramenta capaz de ampliar possibilidades criativas, funcionando de forma complementar à nossa prática, assim como o e-book coexiste com o livro impresso.

A IA como Objeto Intermediário e a “Conserva Digital”

No palco psicodramático contemporâneo, podemos entender a IA sob a ótica da Espontaneidade e da Conserva Cultural. Se por um lado os algoritmos podem gerar “conservas digitais” (respostas prontas e repetitivas), o ato espontâneo-criativo do psicodramatista é o que desafia essas estruturas para oferecer respostas novas a situações dadas.
A proposta é transformar a tecnologia em um Objeto Intermediário capaz de catalisar o aquecimento e a produção grupal no “aqui-e-agora”. Ela atua como uma ponte que ajuda a concretizar a “tela mental” do paciente ou do grupo.

O Exemplo Vivo: “AFF” e “OXENTE”

Uma experiência concreta de integração ocorreu durante uma direção de Luiza de Oliveira, em que Andréa Claudia de Souza atuava como ego-auxiliar. Ao ser solicitado um diálogo entre dois personagens fictícios, “AFF” e “OXENTE”, a IA foi utilizada em tempo real para criar o script e as descrições psicológicas:

  • “AFF” foi caracterizado como a face da racionalidade e do pragmatismo.
  • “OXENTE” trouxe a polaridade emocional e afetiva.

Essa intervenção rápida, gerada a partir de algoritmos que reuniram informações em segundos, serviu como um aquecimento lúdico potente. O grupo foi mobilizado a interagir com essas figuras e, rapidamente, a cena evoluiu para temas próprios trazidos pelos participantes, culminando em uma cena protagonista já desvinculada dos personagens iniciais.

Aplicações Práticas: Do Aquecimento à Cena

Além da criação de diálogos, a IA oferece outros recursos valiosos:

  • Criação de Cenários e Personagens: É possível gerar cenários personalizados (como uma estação ferroviária ou um campo de girassóis baseado em memórias reais) que enriquecem o processo terapêutico.
  • Inovação nas Técnicas: No atendimento online, o uso de avatares facilita a expressão de pacientes que teriam dificuldade com a câmera ligada, transformando o avatar em um personagem que “fala mais” que a própria pessoa. Técnicas tradicionais como o duplo ganham novas roupagens, como o duplo espelho no ambiente virtual.
O Papel Central do Humano e a Ética

A IA é um sistema sociotécnico e sua eficácia depende inteiramente de quem a opera. O prompt (o comando dado à máquina) é a ponte: quanto mais claro e detalhado for o comando do psicodramatista, melhor será o resultado.

A FEBRAP tem liderado discussões sobre o uso ético dessas ferramentas, e alerto para três níveis de relação:

  1. Uso: O emprego necessário e cotidiano das ferramentas.
  2. Abuso: Quando a tecnologia é utilizada de forma indiscriminada.
  3. Dependência Acrítica: Quando se deixa de tomar decisões próprias para seguir cegamente o algoritmo, que muitas vezes busca apenas “agradar” o interlocutor com base em seus vieses.

É preciso estar atento também ao viés algorítmico, que pode por exemplo, priorizar padrões “higienistas” e a branquitude na criação de personagens, exigindo uma postura crítica e inclusiva do profissional.

Conclusão: O Encontro no Futuro

Embora a IA possa musicar o poema “Encontro” de Moreno ou imitar vozes com precisão, ela não possui sentimento ou compreensão humana. A tele e o “olho no olho” permanecem como competências exclusivamente humanas. O futuro do Psicodrama reside em uma integração orgânica, onde a tecnologia automatiza o administrativo e inspira o criativo, mas o psicodramatista permanece como o mestre da empatia e do encontro real.